terça-feira, abril 29, 2008

NOTÍCIAS DE ANGOLA

Recebi esta notícia sob a forma de email, enviado pelo Karipande a quem agradeço.

Coreógrafa defende reformulação do sistema de ensino no país
29/04/2008

A coreógrafa Ana Clara Guerra Marques defendeu sábado, em Luanda, a necessidade de se rever o sistema de ensino da modalidade artística da dança, com o intuito de a tirar da fase de estagnação em que se encontra actualmente e impulsionar a sua evolução e divulgação.

A propósito do estado actual da dança em Angola, a coreógrafa avança que, apesar de não estar na «estaca zero», se não se rever as metodologias de ensino das danças, tornando-o mais eficaz, haverá muitos problemas, tendo em conta a evolução que se vem registando a nível mundial. Não obstante «o grande esforço» feito pelos profissionais que leccionam na Escola Nacional de Dança, adianta, há muito caminho por andar, exigindo mudanças nos métodos de ensino empregues actualmente, por, no seu entender, já não irem de encontro com as inovações que se aplicam no mundo moderno das danças.

«Se queremos ver evoluções na dança, temos que mudar muita coisa no processo de ensinamento. Temos que nos adequar aos novos métodos modernos, fazendo com que os bailarinos e coreógrafos aprendam cada vez mais e façam cada vez mais coisas novas e boas para a dança», defendeu.

Reconhece existir muito por se fazer. «Não estamos na estaca zero, mas acho que se não se rever a forma de ensino das danças vamos ter muitos problemas. Há que preparar artistas, bailarinos, coreógrafos para mudar a imagem actual e isto só se conseguirá através de um ensino eficaz», disse.

Segundo a coreógrafa, o grande entrave à evolução e maior projecção da dança em Angola prende-se com o facto de se dar pouca atenção às danças tradicionais e populares, um facto que, no seu entender, faz com que se coloque de lado a cultura tradicional do país.

«Não podemos olhar simplesmente para as danças modernas, há que dar-se espaço e tempo ao tradicional, um elemento essencial para a afirmação dos angolanos, da identidade nacional. Temos potencialidades em todos os sentidos, nesta altura é apenas necessário que se dê maior atenção ao que temos dentro da nossa cultura», realça.

Sem formação não haverá pessoas para pensar e desta forma evoluir, fazendo e dando à dança a abrangência que ela precisa e que tem nos outros países, sustenta. «Já vão os tempos em que as pessoas que fizeram história na dança em Angola se preocupavam com a formação artística, procurando maior evolução, não só individual como também colectiva, fazendo com que a dança tivesse maior visibilidade no país e no estrangeiro», apontou.

«É muito importante o aspecto formativo, porque sem formação não temos profissionais, não temos pessoas para pensar e reflectir sobre os problemas da dança. É necessário que se aprenda outros itens para que se possa praticá-la sem problemas».

Considera que muitos grupos desapareceram ou estão em vias de desaparecer pelo facto de os seus responsáveis e integrantes não terem dado grande importância à vertente formativa. Angola possui uma Escola Nacional de Dança, instituição adstrita ao Instituto Nacional de Formação Artística do Ministério da Cultura.

Fonte: JA

sexta-feira, abril 25, 2008

PORTUGAL....NO SEU MELHOR

Ontem na SICNotícias, António José Teixeira dizia o seguinte, a propósito da novela PSD: "O PSD, corre o risco de ser um partido muito dividido nos próximos tempos"!
Ele que me desculpe mas não posso estar mais em desacordo. Apenas porque, já está dividido há muito tempo. Neste momento está em desagregação acelerada. Dificilmente um partido qualquer que ele seja resiste a Barroso, Santana, M. Mendes e L. F. Menezes.
O primeiro fugiu e está num sítio em que o controlam devidamente. O segundo foi o que se viu. O terceiro deve estar a ter imerecidas férias praticando bodyboard o seu desporto favorito. O último assim como veio foi.
Agora perfilam-se vários candidatos e um morto-vivo. E, já há muita gente a tomar posições para derreter o que falta.
É no mínimo falta de decoro, para com o povo português que não merecia isto. A cereja em cima do bolo é este regresso de S. Lopes. O homem de facto não se enxerga.
A verdade é que continuamos sem uma oposição capaz. Assim não há democracia que resista.
Termino dizendo que eu não sou do PSD, nem de lá perto.

sábado, abril 19, 2008

Pinturas rupestres da Tchitandalucúa - Benguela


Desde do alvores do chamado Paleolítico Superior na Europa ou a Later Stone Age na África Austral que o homem deixa marcas da sua passagem. Da passagem cultural, melhor dizendo, das suas construções ideológicas, da sua concepção do mundo que o rodeia, ou simplesmente das suas expetactivas económicas.
Em 73 numa das nossas deslocações aos locais de interesse arqueológico, chegou-nos a informação, na JAAE de Benguela, que um senhor, o Sr. Rosa, conhecia um lugar onde havia umas pinturas estranhas perto da Chimalavera ( reserva natural).

O nosso professor, arregalou os seus olhos e, o prestável senhor logo se prontificou a levar-nos ao local. Lá fomos.
Percorremos a corta-mato uma dúzia de Kms por terras secas cheias de bissapas - unha de gato, chegamos ao lugar chamado de tchitandalucúa, onde não se via viva alma. Sem possibilidades de prosseguir com o Land-rover apeamo-nos. Logo debaixo dos nossos pés reparamos que o chão estava pejado de lascas de sílex, de quatrtzo que identificamos ter sido obra humana.
Uma série de pontas de seta, lâminas, raspadores clássicos, enfim uma panóplia nunca vista. Tínhamos descoberto talvez a maior jazida ao ar livre que tive oportunidade ( e o nosso professor) de conhecer, de material trabalhado segundo a técnica de Levalois. Saltámos todos de júbilo.
Como se fazia tarde, o Sr. Rosa logo nos apressou, dizendo que ainda tínhamos que percorrer, a pé, pela mulola, umas centenas de metros para chegar às pinturas.
O rio seco tinha cavado num sedimento cinzento, uma espécie de kenyon com uma dezena de metros de profundidade e com meia dúzia de metros de largura. Finalmente, já com necessidade de beber umas litradas de água, deparámo-nos com uma espécie de gruta cavada pela erosão da mulola, com duas entradas, perfuradas na rocha sedimentar (siltstone) com uma câmara não mais de 4X3 e com dois de altura máxima.
Ao fundo e quase no tecto, tinha então sido pintado três conjuntos de pinturas a branco. Uma com dois pares de linhas circulares concêntricas com linhas transversais orientadas para o centro da figura; outra com apenas um par e com uma linha cruzada ao centro e finalmente um outro conjunto com figuração antropomórfica e zoomorfa associadas, que parecia claramente tratar-se de um cavaleiro.
Apesar dos círculos concêntricos serem comuns na arte rupestre de todo o mundo, parecendo estar relacionada com a visão do cosmos, já a do "cavaleiro", em Angola é inédita.
De imediato pensamos que se tratava da representação de um europeu ( é claro sempre a visão europeista). Mas depois passado uns anos, pensei que bem que poderia ser de um bantu montando um "boi cavalo", que é usado por exemplo, entre os Kwanyamas ou pelos Mdombes.
Pelo estado da tinta branca é bem possível ter sido pintada há umas centenas de anos ( esperamos que os nossos arqueólogos de Benguela já tenham feito análises à tinta e tenham já datações) mas seguramente depois do século XIII, altura em que terão chegado os bantu ao local, a fazer fé que se trata de um homem e um animal. ( ou serão dois homens um deitado sendo massacrado por outro?)
Quanto aos autores, será ainda mais difícil. Terão sido os artesãos das peças líticas? se assim for, terão sido provavelmente os antepassados dos Vassekeles ou dos Cuíssis. Os mdombes? embora eu não tivesse visto nada neles semelhante, no seu artesantato, que lembre os círculos concêntricos.
Infelizmente, não pudemos continuar as pesquisas.
Mas trata-se das únicas pinturas rupestres localizadas mais a ocidente em toda Angola ( até agora, que saibamos). Para comemorar e tirar o pó das gargantas, fomos todos jantar ao Salvado da Baía Farta, e o menu foi invariavelmente caranguejos e muita cerveja.
As fotos foram tiradas pelo Professor Vitor de O. Jorge na única visita que efectuamos e estão publicadas no jornal " Província de Angola" de 1974 ( não tenho mês e dia apontados) incluídas num artigo de que fui co-autor.




sexta-feira, abril 18, 2008

CHEGA!

Para mim chega!
Tirei férias sabáticas do meu país e do meu clube.
O Benfica perdeu com os lagartos. Bateu no fundo.
E eu não acredito em coincidências. Só vejo à minha volta Luises Filipes. Se são Vieira ou Meneses pouco importa.
Estou de férias.
Um abraço

GED

segunda-feira, abril 14, 2008

A IDADE DO FERRO NA TERRA DO GED

Dedico este texto ao meu colega de Liceu e de Faculdade: Luis Pais Pinto um gandense, já falecido, meu amigo e camarada, fundador do Museu Nacional de Arqueologia de Benguela. Tentou em vão fazer com que regressássemos, para prosseguirmos os estudos arqueológicos.



Apeteceu-me deambular pela História dos povos da região do planalto da Ganda. Ali, entre as serranias do Epale, Hondio a leste o vale do Catumbela junto às comunas de Alto Catumbela e Babaera a Norte, a serra da Chimboa a Oeste e a bacia hidrográfica do Cubal da Hanha a Sul, a população espraia-se em pequenos quimbos. Enquadram-se no grupo dos Ovimbundo, e designam-se por M'Gandas. Como noutros Bantu, as comunidades distinguem-se umas das outras por se agruparem políticamente a uma linhagem, quer dizer, dizem-se pertencentes a um descendente de um soba, ou seja, pertencem a um mesmo soba como na antiga Europa.
As bibliotecas vivas ( os sekulos ) não sabem quantas gerações passaram desde que ali se instalaram ( os estudos mais refinados sobre a tradição oral, permitem chegar a cerca de 400 anos atrás ) pelo que a investigação sobre história local tenha que se rodear de uma série de técnicas para descodificar os sinais do tempo dados pela oralidade, posto que ele, o tempo, não tem o mesmo significado e duração, como entre nós. Por exemplo. quando falam "Ame onekulo sekulo Cahanla" ( eu sou neto do avô Cahanla ) não sabemos se o sujeito referido na frase é o seu avô, ou bisavô, tetravô, ou por aí fora... O tal Caála ou Cahanla pode ter morrido num período de tempo: 100, 200 ou 20 anos. Porém... todos eles dizem que o tal soba veio de outro sítio, sejam eles M'Gandas ou Bailundos ou Seles e se fixou com a sua gente ali.
Esta "amostra" de problemas metodológicos alongar-se-ia, o que não é o objectivo deste post.
Apenas quis dar uma ideia do que se nos depara quando pretendemos pesquisar qualquer facto, sem o recurso à arqueologia.


Localização das estações de Quitavava e Pumbala na carta militar


Regressando à origem da população nesta região, ( vejam na carta os lugares). O que os livros diziam ( há 30 e mais anos que não se publica nada de etnologia e arqueologia sobre esta região, penso eu, como dizem os angolanos "através" da guerra) os M'Gandas chegaram por altura do séc. XVII à região e que esta era ocupada pelos M'Dombes e pelos Vassekeles ( ou Mukankalas ).
Aqueles pressionados pelas invasões dos Jagas, segundo uns, pelos Portugueses comandados pelo governador Bento Banha Cardoso e os seus capitães do mato no início do séc. XVII (1611), fizeram deslocar os povos que habitavam o planalto da Quibala, da Cela para Sul, vindo a atravessar o rio Catumbela e instalando-se nas duas margens. Um grupo deslocou-se mais para o planalto abrigado da Ganda ( na minha opinião esta tese da pressão portuguesa, não parece ter muita ou nenhuma consistência porque não descobrimos nenhuma evidência cultural disso).
Os historiadores Childs, e Hauenstein por outro lado, evidenciam que dentro dos Ovimbundo, os M'Gandas e os Hanha chegaram ao Alto Catumbela, Babaera e por aí fora, no início do séc. XVII, vindos de nordeste, fixando-se os Hanha a sudoeste da Ganda ( Cubal da Hanha ) e os M'Ganda no local onde os conhecemos, embora nada nos digam se vieram do Leste ou do Norte.
Bem... não sabemos sem outros estudos, precisar a origem ( nem os próprios M'gandas sabem ) sem a arqueologia. Até lá é só: "diz-se que...". Ainda dentro deste estado de coisas, o pouco que a arqueologia nos pode dizer é o seguinte:




Foto: Serra do Hondio - Equipa de prospecção da UL - 1973. Foto Ana Sá Pinto


A região foi palco de grandes "macas" entre os clãs Ovimbundo (Huambos, Negolas de Caconda, Hanha, Balombos...) e entre estes e os Ganguelas, Jagas (os célebres Jagas de Caconda a Velha conhecidos dos portugueses) Nyanecas de Quilengues e da Huíla.
Porquê?... Essas guerras são provadas pela fortíssima necessidade de fortificar as povoações, ao ponto de permanecerem em zonas quase inacessíveis como a serra do Hondio (que eu tive, com os meus colegas, a oportunidade de visitar e verificar a complexidade das construções) e as cidadelas fortificadas da Quitavava (Pedreira) descoberta pelo Padre Rocha e a Pumbala (Pedra do Elefante). Essas construções e os objectos neles encontrados, provam um grau de tecnologia avançado idênticas às grandes construções da Zambia e Zimbabue.



Foto: A Quitavava ou Pedreira. Foto em www.cpires.com/alto_catumbela.html

A aldeia foi construída no plateau da montanha granítica e toda a sua extensão. (sem querer estar a dizer que os M'Gandas ou os seus antecessores tivessem vindo dali) e de uma forte organização social (não se governa mais de 1500 ou mais pessoas da Quitavava, se assegura a sua defesa e abastecimentos, sem uma elevada capacidade de administração).







Nas fotos: Escavações da cabana 1 e 2 da Quitavava. Equipa da UL. Julho de 1973. Foto de V.O. Jorge



Foto de artefactos. Ponta de seta em ferro e bordo cerâmico da Quitavava. fotos em www.cpires.com/alto_catumbela.html

A Quitavava e Pumbala, convêm esclarecer, são dois "inselberg" de granito (elevações que sobressaem do planalto como se fosse uma mama) com cerca de 100 metros no primeiro caso e no segundo uns 300 metros em relação ao solo, situados de cada lado do rio Catumbela. No topo foram construídas cerca de 500 cubatas em média no primeiro caso e nos locais de mais fácil acesso foram construídos alguns panos de muralha com pedra vã aparelhada que serviam de sustentação das terras e teriam provávelmente uma paliçada. No primeiro dos montes foi feito um trabalho de escavação de duas cabanas e foi feito o levantamento preliminar de outras, em toda a sua extensão. No segundo apenas uma prospecção com recolha de artefactos para contextualizar o estudo que a equipa a que pertencemos da Universidade de Luanda (Cursos de Letras do Lubango) realizou em Julho de 1973. Nela foram registados uma centena de alicerces de cubatas feitas em pedra, seguindo a mesma técnica do que na Quitavava.



Foto: Abrigo com pinturas rupestres da Serra do Hondio. Julho de 1973. Foto de Dr. V.O. Jorge

A serra do Hondio, quanto a mim o local de maior interesse arqueológico, pelo facto de possuír um abrigo granítico de grandes dimensões com pinturas rupestres semelhantes em importância às de Caninghiri, é igualmente um povoado fortificado absolutamente inédito, à espera de estudos de enormes proporções pela sua extensão.No Hondio, indicado pelo gandense Sr. Joaquim Ferreira Júnior que bem conhecia estes locais, os habitantes souberam construír vários níveis de muralha seguindo as cotas do terreno, formando socalcos suportados por pedra aparelhada. Foram também descobertas grandes quantidades de escória de ferro, resultante de fundição local.



Pumbala. Foto 1: vista do Inselberg Pumbala ("pedra do elefante"), à esquerda, com a serra da Chimboa ao fundo. Foto em www.cpires.com/alto_catumbela.html



Foto 2: Prospecção da UL em Julho de 1973. Vê-se em segundo plano os restos da muralha no rebordo do plateaux. Para terem uma ideia da altura, reparem na árvore em último plano no meio de um arimbo. Trata-se de um mutiate com cerca de 15 metros de altura. Foto de V.O. Jorge

Outra estação importante foi o abrigo 1 da Ganda (distante uns seis Kms, mas com uma diferença de cotas de cerca de 300 m) e foi o único local que mereceu três campanhas de escavações, (não completadas desde 1971 a 1973) e que revelou, entre outras coisas vários artefactos da Idade do Ferro, um forno (cremos que completo) de siderurgia de grandes proporções e que deve ter estado activo umas dezenas de anos, a avaliar pela quantidade de escórias.





Foto: Março de 1973. Abrigo 1 da Ganda. Escavações realizadas pela equipa coordenada pelo Dr. Vitor Oliveira Jorge, nosso Professor de Pré-História. No sentido longitudinal, vê-se a vala de sondagem realizada pelo Boaventura Santos, nosso colega, sob a direcção do Dr. Vitor Gonçalves, um ano antes. No sentido transversal a vala sondagem realizada por nós. Foto de V.O. Jorge

Este abrigo natural é um recôvado num soco granítico com uns 12 metros de boca e uns 3 de altura (em relação aos sedimentos actuais). Serviu de oficina de fundição e o nível onde se situava a calha por onde escoava o ferro derretido, ficava a cerca de um metro abaixo do nível actual. Este facto sem que haja datação pelo C14, permite arriscar que foi construído há mais de duzentos anos e seria contemporâneo, pela semelhança na cerâmica e noutros artefactos, das outras estações citadas.



Na foto: Início da desmontagem dos sectores W da vala Q1, Q2 e Q3. Foi no Q2, onde tebho o pé que se encontrou a 1m, a calha de vasamento do forno de fundição. No quadrado em primeiro plano, também a 1m foi encontrado um esqueleto (pés e pernas) humano. Vêm-se para além de mim a Ana e de costas a Olívia. Foto de V.O. Jorge

Voltando à problemática da História da terra. No local (1973 a 1975) não houve uma só pessoa da população dos mais velhos, que nos dissesse, que alguém lhes tinha contado, que havia aldeias no Hondio ou em cima das pedras da Babaera e Alto Catumbela. Isso parece indicar (até que possamos datar os vestígios que saíram das escavações, através da análise dos isótopos de carbono e termoluminescência) que, pelo menos as fortificações foram abandonadas há mais de cento e cinquenta anos.



Foto: Um algaraviz em barro refractário. Trata-se de uma peça que encaixa no forno e serve de ligação entre o fole e a câmara de fundição. Foto de V.O. Jorge


Os três locais onde se encontraram aldeias montadas em Inselbergs ou serras do vale da Ganda ou do planalto do Alto-Catumbela- Babaera já citados, situam-se numa rota usada pelas caravanas que faziam circular mercadorias do interior do Bié para Benguela e Catumbela, conhecida e explorada desde os primórdios do séc. XVII. Primeiro pelas caravanas de escravos, depois pelas caravanas de cera, do marfim e finalmente de borracha.



Planta do Abrigo 1 com a localização das valas de sondagem em Susana Jorge

Esse facto pode estar na origem dos ataques de exércitos de sobados do interior do Huambo, na tentativa de controlar o tráfego e em consequência da necessidade de defesa dos M'Gandas, daqueles, ou das incursões dos bandos armados pelos funantes, ou mesmo dos portugueses de Benguela (S. Filipe para não confundir com Porto Amboím). A verdade é que o facto de descobrirmos no alto da Pumbala (Pedra do Elefante) na Quitavava, no Hondio (menos) e no Abrigo1 da Ganda, quantidades substanciais de escória de ferro, algaravizes (tubos de argila refractária) e de fornos de fundição de ferro (neste caso no abrigo 1 da Ganda), que demonstram a grande capacidade logística de guerra dos povos aí instalados. Subir uns trezentos metros de altura por pedra lisa quase na vertical, carregando minério, água e alimentos para alimentar umas dezenas de famílias (no caso da Quitavava e Pumbala) só era possível com uma excelente capacidade de organização.
A ocupação do planalto pelos portugueses, só foi possível na segunda metade do séc. XX quando a população passou a considerar vantajoso os negócios ou o emprego na construção do Caminho de Ferro de Benguela e na plantação de eucaliptos para alimentar as locomotivas, já na década de vinte.

Conclusão: Os M'Gandas tal qual os conhecemos, das duas uma: ou são efectivamente anteriores à fundação de Benguela e permaneceram no local até à sua ocidentalização e "pacificação" no início do sec. XX, ou vieram depois de outro povo lá ter estado, que falta averiguar, (seriam os M'Dombes) que entretanto teve que migrar dali. Uma coisa parece ter aceitação de todos: os Hanha pelo seu modo de vida (com mais gado e vivendo mais à volta dele) são os mais antigos na bacia do Bonga, do Cubal da Hanha, mas não devem estar relacionados com as construções amuralhadas. Os M'Ganda vieram depois e devem tê-los submetido, implantando a sua cultura tradicional, mais ligada à agricultura de massambala e menos ao gado e salvo prova em contrário, seriam os habitantes de tais fortificações.
A finalizar: Muito há a fazer para estudar a região e neste caso, só com uma equipa envolvendo várias disciplinas desde a arqueologia até à linguística, como dizia o nosso professor Vitor Jorge há 34 anos atrás. Até lá...só bocas.

Bibliografia: Jorge, Vitor O. "Estudos Arqueológicos na Região da Ganda, Museu de Arqueologia dos Cursos de Letras da UL. Sá da Bandeira (Lubango) 1974.

Jorge, Susana O. "Vasos Cerâmicos do Abrigo 1 da Ganda. Guimarâes, 1976

www.cpires.com/alto_catumbela.html


Este texto foi publicado pelo meu amigo Sá Pinto. A necessidade de o formatar retirou-lhe o nome. É um texto extraordinário e ainda bem que decidiu partilhá-lo connosco.
Um abraço e mais uma vez obrigado.

sábado, abril 12, 2008

PARABÉNS

O autor deste espaço celebra hoje a sua chegada a este planeta fantástico (que ficou mais rico com a sua presença). Que o dia seja lindo com as cores e os sons africanos. Um abraço.

quarta-feira, abril 09, 2008

Amuralhados do Jau - Huíla


Os amuralhados do Jau rodeavam uma porção de uma cornija que dava para um vale com cerca de 1,5Km aproximadamente ( do lado direito da fotografia) escavado por uma ribeira. Foi construído com uma planta mais ou menos elíptica com cerca de 200m no eixo maior e uns 50m pelo eixo menor. Compõe-se de duas linhas de muralha assentes em duas cotas do terreno separadas por uns dez metros. A linha exterior tinha provavelmente dois metros de altura (visível do lado direito) e a do interior cerca de 3m. A comunicação entre uma e outra linha era feito por um espaço em que uma das "abas" se alonga em relação à outra, protegendo assim a entrada. ( visível na foto em primeiro plano) O muro era formado por lagetas de calcário dolomítico cortadas no próprio local. Eram colocadas com inclinação de cerca 30º para o interior da parede de forma a dar firmeza à construção. ( reparar na figura em primeiro plano)

O segundo pano de muralhas era "perfurado" por vigias ( algumas delas de perfil triangular) construídas distando cada uma três ou quatro metros, nuns casos noutras a mais ou menos um metro. ( na foto, abaixo do autor)

Este pormenor arquitectónico a poucos cm do chão, faz suspeitar que se destinava provavelmente à colocação de uma peça de artilharia de pequeno calibre, ou serviria para lançar setas com os arqueiros ajoelhados. Relativamente à cronologia, de acordo com


o que apuramos de um conjunto de inquirições aos sobas da região, teriam sido usadas nas guerras entre Nhanyecas e Kwanyamas durante o princípio do século XIX embora tudo leva a crer que teriam sido construídas bem antes.
O padre Carlos Esterman também as situa no século XIX, presumindo que tivessem sido também usadas nas campanhas de João de Almeida. Pelo facto de não ser evidente a construção de cabanas com base em pedra ou à maneira Muhuíla ( a arqueologia dar-nos-ía essa informação) leva a pensar que seria uma ocupação temporária, enquanto durasse a campanha militar. Infelizmente não foi possível fazer escavações para recolha de artefactos in sito e sobretudo, ossos ou carvões, que permitissem datação por carbono catorze ( foram, contudo, recolhido alguma cerâmica com colo fragmentos de cerâmica com colo decorado com caneluras, vulgares da cultura bantu). Sem tais documentos não é possível indicar se o período de utilização fora longo ou curto e quais os seus construtores/utilizadores. Os sobas não disseram, ou não quiseram dizer, se tinha sido gente Muhuíla ou Ganguela.
As escavações do local, bem como o do Ossi, eram um dos muitos projectos que a equipa de estudos arqueológicos dos Cursos de Letras da Universidade de Luanda tinha em carteira em 1974/75.


O autor, a Ana e o filho do Professor David Birminghan, junto à linha descendente da segunda fila de muralha.





Muhuíla casada ( a secção de cone ao pescoço, simboliza o dote em cabeças de gado ) provavelmente descendente dos construtores do amuralhado. (foto do museu da Huíla)

segunda-feira, abril 07, 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO

Muito se tem falado deste acordo.
Muitos são violentamente contra e muitos são violentamente a favor.
Verdadeiramente, nem de um lado nem de outro os argumentos são suficientemente válidos para serem ouvidos.
Pessoalmente, sou contra tudo isto. Para quê um acordo?
O português nasceu em Portugal e como todas as linguas vivas, tem-se modificado ao longo dos séculos, sofrendo alterações de acordo com a nossa vontade.
O mesmo acontece com as outras formas de português, falado na pátria lusófona. Então porque não deixar o nosso e os outros "portugueses" evoluir livremente. Não se hão-de modificar tanto que não nos entendamos.
O argumento de que por exemplo em Angola, os miúdos lêm por livros brasileiros e de que a maior livraria de Luanda é brasileira não tem razão de ser. Estudei por livros espanhois, italianos, ingleses e ninguém, nem eu, pareceu preocupar-se com isso.
Além do mais, se há preocupação, tem a ver com a ineficácia dos sucessivos governos, na ajuda livreira a esses países e no esquecimento crónico de abrir boas livrarias portuguesas nos nossos países irmãos.
Aparentemente, parece que queremos salvar a lingua portuguesa da forma mais fácil. Encostando-nos ao Brasil!
E, ainda por cima a língua portuguesa não precisa de ser salva.

GED

domingo, abril 06, 2008

NOTÍCIAS DO MEU PAÍS

Sob o título " Contra o colonialismo de Lisboa", no Público de hoje, dizia-se o seguinte:
... Drumond, deputado regional e assumido membro do movimento separatista Flama que perpetrou dezenas de atentados bombistas no pós-25 de Abril, defendeu ontem que a Madeira deveria declarar unilateralmente a indepêndencia caso a proposta de revisão constitucional que o PSD-M vai apresentar em 2010 não tenha o sucesso pretendido.
"Se unilateralmente, abusivamente, autoritáriamente, os vermelhuscos nos disserem que não temos mais autonomia nessa revisão, Jardim ameaçou que "isto não fica assim" e "podemos ter aqui uma situação muito grave". Se tal acontecer, não somos nós que estamos a pôr em causa a coesão nacional. Os separatistas são essa gente de Lisboa, nomeadamente o PS e o PCP, que nos têm perseguido ao longo destes anos.

Ora aqui está, uma óptima oportunidade de fazer um referendo no Continente, para saber se estamos interessados no problema.
Por mim, "bora lá" dar a independência à Madeira.


GED

quarta-feira, março 12, 2008

CUNENE

Claro que estive no Cunene, com o meu (nosso) amigo Nani.
Uma verdadeira enciclopédia no que diz respeito ao conhecimento do terreno e suas plantas.
Uma agitação interior, que chega a ser comovente.
Apenas um desejo: estar nos matos, e um dia morrer aí.
Na solidão e na largura daquela zona, consegui compreender o que me tentou sempre dizer.
Como ele, alimentei-me dos silêncios absolutos, que aquelas matas encerram.
Há muito que não via céus tão cheios de estrelas. Sem qualquer poluição a interpor-se. Vi constelações há muito esquecidas.
Só não consegui ver os elefantes, embora tenha tentado.


GED

domingo, março 09, 2008

REGRESSO



Aos meus amigos, que me deram recados, apenas posso dizer que fiquem descansados. Entreguei-os pessoalmente.

Ao fim de alguns dias de lá estar alguém me perguntou: afinal, como achas o país?
Acho-o melhor. Não vou discutir as graves distorções sociais, a corrupção e todos os problemas inerentes. Também não vou fingir que ao fim de quinze dias sou um "expert". Conto apenas o que vi. Por onde andei, vi um país virado do avesso em obras de reconstrução. A rede viária está a caminho de ficar boa. O movimento de mercadorias é tremendo. Não vi pessoalmente, mas as fotos que me mostraram do Huambo em reconstrução, são increditáveis. Vão lá e vejam.
Não fui ao Cubal, pois não tive nem tempo nem oportunidade, mas estou como o meu amigo Manel, que me pediu várias coisas, mas que não trouxesse nada do Cubal, invocando que o Cubal estava todo no seu coração, sem qualquer falha.
Andei pelos matos, fui ao Lubango e ao Cunene profundo. Por picadas exactamente iguais às de antigamente. Aí estive com amigos e trataram-me como um princípe. O Cunene é de uma beleza inacreditável. O que me impressionou mais foi o silêncio. Total e absoluto. Nunca tinha experimentado nada assim. Andei na peugada dos elefantes, sem nunca lhes ter posto a vista em cima. A cereja em cima do bolo, foram as tremendas chuvadas só possíveis em África. Nuvens negras e muito gordas, despejando-se num ritmo alucinado.
Conheci novos amigos. Em Luanda pude finalmente dar corpo, voz e principalmente olhar a pensamentos que já conhecia.
Regresso, com data já marcada para voltar. Combinei com os meus amigos, regressar ao Cunene e passar uns dias num dos últimos paraísos da terra. Ali mesmo ao lado, no Botswana, num lugar mítico chamado delta do Okavango.

GED

Red Velvet Mite

Henrique,
Pelas saudades e boas recordações que nos trazem, permite-me ampliar o nosso amigo Red Velvet Mite.
Porque as suas origens são pouco conhecidas, aqui fica um complemento:
Velvet MitePhylum: Arthropoda / Subphyum: Chelicerata / Class: Arachnida / Subclass: Acari / Superorder: Acariformes / Order: Actinedida / Suborder: Parasitengona / Superfamily:Trombidioidea / Family: Trombidiidae (Velvet Mites)
.
A presença do Veludo vermelho é extremamente importante para o meio ambiente. São parte de uma comunidade de artrópodes do solo que é crítica em termos de taxas de decomposição em florestas e na manutenção da estrutura de todo o ecossistema. Alimentam-se de insectos, fungos e bactérias, estimulando a decomposição do processo.
.
Continuamos a aguardar, com expectativa, as tuas histórias da viagem à Terra Amada!
Abraço
Ruca

quarta-feira, março 05, 2008

REGRESSO


Regressei!
Amanhã darei conta de tudo.
No entretanto, há quanto tempo, não vêm um bichinho destes ?
Um abraço

GED

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

PARTIDA

Partidaaaaaaaaaaaaaa!
Tantas vezes ouvi este grito, nas noites em que o combóio mala estacionava por breves momentos na estação do Cubal.
Amanhã, vou-me para a minha terra.
Estou ansioso. Sei que vou estar feliz durante alguns dias.
A todos os amigos que ficam, apenas posso desejar que fiquem bem.
Todos os recados serão dados.
Todas as respostas serão trazidas, para mais um ano de ansiedade pelo regresso.
Um abraço e até daqui a três semanas.

GED

sábado, fevereiro 02, 2008

REABILITAR

Henrique, como está perto a partida desejo-te boa viagem e como vais visitar o interior da Nação leva-me estes versos:

REABILITAR


Rio grande de nome Jombo separando
O Bié de Malange que precisam de comunicar
Pois as «gentes» fartaram-se da guerra. Lembrando
Luquembo, Catembo e Quirima para amplificar
O que sai da terra, agora sem voz de comando,
Com suor e tremenda vontade para exemplificar
O querer indómito dum povo que lutou até à morte
Porque quis simplesmente mudar a sua sorte.

Ingredientes vorazes para se reabilitar:
Água abundante, solo (e subsolo) pujante,
Gente boa que já não quer ser militar
Para ultrapassar a vazia luta doidejante
Que colocou irmãos sem poderem anoitar.

Pontes e estradas rasgando o Rio Jombo
Carregando frutas de sabores divinais,
Transportando cantares no velho machimbombo,
Testemunho válido de gastos valores doutrinais,
Que embora esquecidos, já não são um biombo
Para a evolução alegre e sadia das tribais
Tradições que farão parte da reabilitação
Lenta, dura e segura do interior da Nação.

kambuta

sexta-feira, janeiro 25, 2008

A LUTA CONTINUA...

Hoje fui fazer a inspecção do meu carro.
O senhor que me atendeu, fez a vistoria e no fim com ar pesaroso disse-me:
- não posso considerar o seu veículo apto, porque os coletes não estão homologados.
Desculpe, disse eu. Comprei-os numa loja da especialidade e garantiram-me que estavam.
Respondeu-me: pois...

Nota: lá o convenci a dar o carro como apto, com a promessa de que iria dali comprar os novos coletes!

GED

quarta-feira, janeiro 23, 2008

EUROPA, QUERIDA EUROPA...

Fui à DGV renovar a carta de condução.
Deram-me uma guia para poder conduzir e, lá dizia que só era válida em território nacional.
Perguntei: território nacional considera espaço europeu sem fronteiras, um país de Lisboa até quase aos Urais?
Responderam-me: não. Nacional, mas nacional mesmo!!! Só cá dentro.
Ok, disse eu. Dentro de dias vou para o estrangeiro, mais concretamente Espanha. Podem passar-me uma guia para conduzir em terras estranhas?
Responderam-me: não. A única entidade que o pode fazer é o Automóvel Clube de Portugal!!!
Disse eu: como assim? Essa entidade é privada.
Responderam-me: pois...
Fui ao ACP. Lá disseram-me, que devia ter lá ido renovar a carta de condução porque só demorava três dias. Como assim? disse eu. Na DGV só me entregam a carta dentro de dois meses.
Resposta: pois...

GED

domingo, janeiro 20, 2008

INFORMAÇÃO

A Pwo pediu para divulgar e, quando um amigo pede...


Caros amigos,
Em anexo vão informações sobre um ciclo de cinema dedicado ao realizador Jorge António, a ter lugar no Centro Cultural Português, em Luanda, entre 21 e 25 de Janeiro, pelas 18.00 Horas.
A entrada é livre e a vossa presença será um prazer.
Quem tem blogs que se sinta livre para divulgar
(Ver aqui: http://www.ica-ip.pt/detalhe.aspx?newsid=145 )
Um abraço
A. C.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

CHUVA


Essa fotografia fez-me ir buscar um poema que há muito não lia.
Cacei-o em jeito de rima com a imagem.
Penso que fazia falta lá na terra, onde Janeiro não é muito de chover. Quando chovia era o alívio... com 35 graus, como de costume, as primeiras pingas deixavam-nos respirar e o nossos sentidos abriam-se aos cheiros balsâmicos da terra. Brotavam os veludos e os sapos iniciavam os seus cânticos que nos embalavam a noite.
É um poema bem velho de uma pessoa que deixou raízes em Benguela.

"Chove.
E a trovoada
É um batuque incessante,
uma estranha batucada.

Os raios são setas de fogo
que misteriosamente, em tom de guerra,
espíritos do mal lançam da altura
para incendiar a Terra.

O vento
Ora violento, ora brando,
o vento é o cazumbi dos cazumbis
-o Deus do mar, do rio e da floresta -
que vai cantando e dançando,
em tragicómica festa,
o seu coro de mil vozes,
os seus bailados febris.

As nuvens negras são virgens tontas,
quais almas do outro mundo,
errando como sonâmbulas
pelo céu negro e profundo...
é a chuva, constante e forte,
é o pranto (parece eterno)
dos deuses negros que a Morte
sacrificou no Inferno."

Geraldo Bessa Victor 1917

Um abraço Henrique. Espero que o poema cure.
Jorge Sá Pinto.

terça-feira, janeiro 15, 2008

NUVENS


Hoje sinto-me assim. A saudade roendo-me a alma. Queria que fosse uma chuva tropical e que depoi o sol irrompesse glorioso. Mas não, é mesmo inverno, frio, cinzento


GED

RESPOSTA

Meu amigo.

O recado está dado. Vou cumpri-lo na integra, aliás já está meio cumprido.
Apaixonei-me há muito, sem remédio nem retorno.
Tenho gritado tanto quanto posso, para dizer que o futuro daquela terra já é, e que o que está para trás aí deve ficar.
Tudo o resto cumprirei fielmente.
Para além disso vou ao Kalaari.
Quero encher-me de silêncios, ver estrelas há muito esquecidas e estar com um homem que fala com os ventos.
Quanto a Benguela, a minha querida Benguela, também eu cresci lá. Já combinei.
Saio do aeroporto e vou directamente para a praia morena. Fazes lá ideia do que essa praia tem para me contar!
Sempre que ouço o Let's Twist Again, vejo a praia morena e muito mais que não te vou contar aqui.
As contas desse rosário, dir-te-ei um dia de viva voz e sem testemunhas.
Um grande abraço e a minha profunda emoção pelo enriquecimento que tu e todos os outros amigos trazem a este blog.

GED

LEVA-ME UM RECADO

Henrique, sei que em breve vais até à terra que me viu nascer. Então, se fizeres esse favor:


LEVA-ME UM RECADO


Estranhará o bútio-vespeiro se lhe pedir
O favor de comigo se identificar
Num recado que gostaria de transmitir
Pois anda retido no peito e a mistificar
Uma ausência há muito esquecida. Ouvir
O que tenho para dizer sem calcificar
É o primeiro passo que a pobre ave
Terá que suportar, apesar de não ser grave.

Então peço-te que quando arribares
Em Quibaxe digas à terra que me viu nascer
Que tens um prazer inofensivo se surribares
Aquele solo vermelho que o café faz renascer
Em ciclos biológicos renovantes e se estribares
Naquela frondosa vegetação, ao alvorecer,
Arranca uma colorida e cheirosa folha,
Põem-na no bico e dá-me, pois é a minha escolha.

No teu voo para Sul poisa no Cuito
(A antiga Silva Porto) com a graciosidade
Que este pedaço de terreno merece e se o periquito
Que era meu ainda lá estiver, sem facciosidade
Abraça-o por mim sem outro intuito
Que não o agradecer-lhe a companhia na ociosidade
Do quintal em que partilhámos mangueiras
E mamoeiros no meio da tantas goiabeiras.

Quando te virares para o mar da corrente
Fria que equilibra a força dos ventos e marés,
Escolhe a Benguela do meu crescimento em torrente
Que me ensinou a andar no meios dos larés
Evitando os simuladores que na extracorrente
Atraíam a miudagem para os enormes jacarés
Vestidos de homens audazes e sem escrúpulos,
Mas que felizmente não tinham discípulos.

Ao sobrevoares Luanda refreia o entusiasmo,
Mergulha devagar na baía azul e serena
Espreguiçando as asas e repete o diplasiasmo
Altruísta que açambarca aquela morena
Encostada ao coqueiro que é um pleonasmo
Da beleza tropical na antítese da gangrena.
Não demores porque ainda te vais apaixonar
E enfeitiçado nunca mais a queres abandonar.

E quando o teu regresso estiver eminente,
Grita-lhes bem alto um recado de confiança
No futuro, pois Povo que ultrapassou tão evidente
Martírio com tanta persistência e esperança
Não precisa de lembrar o passado impertinente.
Mistura-te no meio da multidão e qual criança
Estouvada, dança e pula no meio dos charcos
Que contêm a vida renascida em múltiplos arcos.

kambuta

quarta-feira, janeiro 09, 2008

TRATADO DE LISBOA

Os portugueses, ainda acreditam no Pai Natal!!!
Ainda acreditam que as promessas eleitorais são para cumprir.
Ainda acreditam que não têm que fazer nada, para que as coisas mudem.
Ainda acreditam que se votarem de quatro em quatro anos, estão em pleno regime democrático.
Muitos portugueses ainda acreditam, a maioria talvez.
O povo de Anadia, já não acredita assim tanto e, vamos ver o que vai acontecer.
O povo português ainda é muito crédulo, tão crédulo que o nosso Primeiro, se sente à vontade para vir dizer que não há referendo, porque o Tratado Europeu anterior e o actual Tratado de Lisboa são coisas completamente diferentes e, a promessa feita foi em relação ao Tratado anterior.
Além de ser muito crédulo, o povo português ainda por cima, leva com uma rodada de burro em cima.
Viva a democracia lusa.
GED

sexta-feira, janeiro 04, 2008

SÁ PINTO

Amigo

O que vou deixar aqui, em jeito de abertura, de agradecimento também, não é muito. É um soltar de dentro.

Tem a ver com o dia 4 de Janeiro. Há muitos anos foi o dia que fumei um charuto, um "cohibas" e bebi um trago de uma garrafa de champanhe da Ukrânia que me trouxe o meu amigo, vizinho e confidente, Shahen Mnassakanian. Era assim o costume, dizia ele, chorando como eu nunca vi. Junto com ele tinham vindo os meus colegas, meus amigos e companheiros de muitas viagens: José António e Orestes Pimienta.

Depois de termos passado juntos a passagem de ano daquele longínquo 82, vieram quando eram 8:00h naquele velho hospital de nome Simão Mendes. Tinha nascido mais um guineense, desta vez fruto de um internacionalista, como eu me intitulava, nascido no Lobito e uma portuguesa, ainda mais internacionalista, mais angolana do que da Figueira da Foz.

Era a segunda vez que eu experimentava aquela alegria incontida. Um rapaz ( como dizia o Orestes, de cojones negros!) deste vez, como convinha a quem já tinha uma rapariga, nascida na Ganda e registada no Lubango e batizada em Benguela.

Quis o destino a este jovem, a quem demos um nome guineense, não lhe ser favorável. Nem a nós que o perdemos. Também em Bissau, no Simão Mendes, a escassas dezenas de metros do local onde nascera, um ano e meio depois, tendo junto a nós os mesmos amigos, chorando desta vez de dor: Shahen, José António, Orestes mas desta vez juntava-se-lhes Alex, Dulce Borges minha amiga e chefe e o meu colega e vizinho Djawara.

Precisava escrever isto hoje. Amanhã não teria o mesmo significado. Aqui no sítio deste amigo do Cubal.

Um abraço Henrique. Desculpa ter abusado.


Caro Sá Pinto: não há qualquer abuso, esta é a tua casa. Obrigado pela partilha de coisas tão intimas.
Um abraço
GED

quarta-feira, janeiro 02, 2008

O MEU PAÍS

Um amigo meu, diz que o que faz mal não é o que se come entre o Natal e o Ano Novo. O que faz verdadeiramente mal é o que se come entre o Ano Novo e o Natal.
Vem isto a propósito das tão faladas, badaladas, mediatizadas operações de Natal e Ano Novo, para diminuir a mortalidade nas estradas.
No fim, com um ar jovial ou pesaroso vêm dizer-nos que morreu menos ou mais gente ( um ou dois), nas estradas durante este período. Os dados desde o início que estão inquinados, pois dos feridos graves ninguém mais ouvirá falar, mas não é disso que aqui se trata.
Vão ao nosso dinheiro, gastam milhões a preparar as ditas operações, dizem umas quantas coisas na televisão, durante meia dúzia de dias andam por aí e, o resto do ano é o que se vê.
Aquilo que deveria ser o trabalho normal, diário, disciplinador dos condutores em Portugal, torna-se motivo pontual para apresentar serviço.
É como se todo o povo português que trabalha, decidisse fazer os mínimos durante todo o ano e, nestas alturas vir mostrar mais um pouco de serviço.
A única coisa que eu ainda não entendo, tem a ver com o facto de ninguém protestar pelo actual estado de coisas. Há comissões de utentes para tudo, até para pagar menos portagens. Mas, ninguém se incomoda com este desaforo.
Não se preocupem, que para o ano há mais. E se este ano morreram dezasseis, verão que no próximo ano, ou são quinze ou são dezassete.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

NATAL


"O Natal não anda perdido por aí".
Obrigado, amigo Kambuta por lembrares isso.
Para todos os meus amigos, para todos aqueles que têm a infinita paciência de passarem por aqui, desejo um bom Natal.
Não se esqueçam que vem aí um Ano novinho em folha para utilizarmos como nos aprouver.
Pela minha parte desejo que sejam felizes.

Um abraço
GED

segunda-feira, dezembro 17, 2007

A MINHA TERRA

Já fiz muitos poemas à minha terra. Neste blog, a esmagadora maioria dos poemas são originais, escritos pelos respectivos autores que têm a fidalguia de os publicar aqui. Por isso, o poema que vou partilhar com vocês, e que constitui uma excepção às regras que impus, não foi escrito por mim nem por nenhum de vós.
Apenas gostaria de o ter escrito. Foi-me enviado por um grande amigo e, tocou-me bem fundo.

Quando te disse
que era da terra selvagem
do vento azul
e das praias morenas...
do arco-iris das mil cores
do sol com fruta madura
e das madrugadas serenas...

das cubatas e musseques
das palmeiras com dendém
das picadas com poeira
da mandioca e fuba também...

das mangas e fruta pinha
do vermelho do café
dos maboques e tamarindos
dos cocos, do ai u'é...

das praças no chão estendidas
com missangas de mil cores
os panos do Congo e os kimonos
os aromas, os odores...

dos chinelos no chão quente
do andar descontraido
da cerveja ao fim de tarde
com o sol adormecido...

dos merenges e do batuque
dos muquixes e dos mupungos
ds imbondeiros e das gajajas
da macanha e dos maiungos.

da cana doce e do mamão
da papaia e do cajú...

tu sorriste e sussurraste
'Sou da mesma terra que tu!'

Ana Paula Lavado
in ' Um beijo sem nome' do livro 'Vozes ao Vento'

sábado, dezembro 15, 2007

Homenagem ao Mestre Oscar Niemeyer

Caro Henrique,
Honrando o convite, gostaria de homenagear o grande Mestre da Arquitectura mundial, que faz hoje 100 anos . Para o efeito, relembro este poema e desenho do próprio, que demonstra bem a sua admirável personalidade.
























Poema da Curva
Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e
sensual. A curva que encontro nas
montanhas do meu país, no curso sinuoso
dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo
da mulher amada.
De curvas é feito todo o universo.
O universo curvo de Einstein.

Oscar Niemeyer (Fevereiro de 1988)

Já vos tinha dito antes. A generation next, mostra as suas garras e logo com um peso pesado, Oscar Niemeyer. Nem sabem como isso nos faz felizes. A mensagem foi bem passada e, agora já podemos ficar sossegados.
Ruca, um grande abraço e obrigado.
GED

sexta-feira, dezembro 14, 2007

EQUÍVOCOS

Henrique, aproveitando o desejar, a ti e aos que visitam este blog, um Santo Natal, aqui deixo escrito alguns:

EQUÍVOCOS DE NATAL


Celebrar com alegria e vontade
O nascimento do filho de Deus
Não está ao alcance dos camafeus
Que zunem este canto de crueldade.

Os que ignoram o conhecimento
De tais Divindades sentem bem
A dificuldade, sem ressentimento,
Em participar nesta festa do Além.

Para quem está preso e confinado
Ao castigo, merecido ou não, o Natal
Não é certamente por ele apreciado
E louvado da mesma maneira afinal.

Os que, por razões várias, não têm
Nem querem abrigo, o presépio
Que admiram é o que os mantém
A lutar para nada terem e sem pio.

Aqueles que não pediram, mas cuja
Saúde se vem aos poucos deteriorando,
A festa é de certeza muito mais sabuja
E incompleta dos que se vão alegrando.

Para a catraiada que nunca teve
Um presente, passado ou futuro
E que a existência é um alto muro
Íngreme no ódio que se manteve.

Para os que fabricaram estereótipos,
Esta Quadra tem um sabor especial
E contrariando o espírito de Natal
Só vêm lucros opulentos e atípicos.

Para os que usam a eterna esperança
Como bandeira ineficaz e invisível,
É uma catarse de tremenda confiança
Defendendo erradamente o previsível.

É mais fácil partilhar o vácuo
Esvaziado do que uma mesa farta
Mantendo o falseado «Status Quo»,
Trocando carinhos através duma carta.

Unem-se famílias na hipocrisia
Do ano inteiro, esbanjando gestos
Que mancham a estupenda alegria
Que vai morrendo, ficando de rastos.

Para os que se esqueceram de lutar
Colectivamente é acto individual
De aborrecimento bem descomunal
Tendo algo, para em comum, festejar.

Ah Natal, meu recordado Natal,
Os que te inventaram não mediram
As consequências e não exigiram
Que te mantivesses sempre divinal.

Tu, que deixaste de ouvir as preces
Do Senhor e os canticos sem sentido,
Tem calma, sossega e não te apresses
Pois o Natal não anda por aí perdido.

kambuta

um abraço

Kambuta: estás em tua casa. Só fico mais rico, ficamos todos, com a tua participação.
Um abraço
GED

quinta-feira, dezembro 13, 2007

REFERENDO - SIM, NÃO, TALVEZ, NUNCA!!!

Hoje ouvi declarações de um lente, Professor Doutor, luminária, vate da nossa sociedade, sobre o famoso referendo.
Dizia o senhor que referendo nunca, pois as matérias do novo Tratado de Lisboa eram tão complexas que não eram acessíveis a gente culta, quanto mais ao povo.
Este argumento exibido à exaustão, é do mais reaccionário que tenho ouvido e colocam-se de imediato várias questões que com toda a certeza continuarão sem resposta.

Afinal o referendo fazia ou não fazia parte do pacote eleitoral do partido no Governo?
Claro que fazia, mas só durante o período eleitoral, aliás, como muitas outras coisas.

Afinal, vamos ser governados por leis tão complexas que só uma “elite” as entende?
Parece-me demasiado perigoso, envolver-me por decisão destas luminárias, em algo que não conheço e, que certamente vai influenciar todo o meu modo de vida.

Quando um médico tem que fazer uma intervenção complexa num doente, não está obrigado por lei a explicar-lhe o mais claramente possível tudo o que vai fazer e tudo o que dessa intervenção pode advir?
E um pedreiro que me faça obras em casa? Não tem que me explicar direitinho o que vai fazer e quanto custa para eu poder decidir?
Por que motivo estes “gringos” podem actuar livremente em nome de todos nós?
Por que motivo, não dispendem algum do seu precioso tempo a explicar-nos o Tratado de Lisboa, como se todos fossemos loiros e burros?

Pois é. Estamos entregues a um destino que só parece estar nas nossas mãos, quando esta quantidade de gente nos vem pedir votos. E, não se iludam, isto passa-se com qualquer partido.

A minha questão final é: até quando vamos aguentar isto?
GED

quarta-feira, dezembro 12, 2007

CIMEIRA EUROPA - ÁFRICA

Delegações de oitenta países e representantes das Comissões da União Africana (UA) e da União Europeia (UE) reuniram-se hoje no Egipto, onde aprovaram um comunicado final e ouviram a Declaração de Lisboa, que será apresentada na Cimeira UE/África.O encontro que se realizou em Charm el-Cheikh, no Egipto, foi a última reunião ministerial antes da Cimeira de Lisboa, tendo os trabalhos sido abertos pelo ministro português dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, e pelo seu homólogo de Egipto, Ahmed Abdul Geid Luí Michel, bem como pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Gana e pelo comissário da União Africana pelos Assuntos Económicos, Maxwell Mkwezalamba.

..."A Cimeira UE/África, que reúne a União Europeia e a União Africana, oferece-nos uma oportunidade única para, em conjunto, enfrentar os desafios actuais dos nossos continentes, no ano em que celebramos o 50º aniversário da integração europeia e o 50º aniversário do início da independência de África", ...

..."Unimo-nos no reconhecimento das lições e experiências do passado mas também na certeza de que o nosso futuro comum requer uma abordagem audaciosa que nos permita enfrentar com confiança as exigências do mundo global"...

..."ultrapassando a tradicional relação de doador-recebedor, empreendendo uma estratégia de parceria política, construída na base de valores, preocupações e desafios comuns"...

..."Neste contexto, os ministros e chefes da delegação realçaram a relação histórica entre os dois continentes e a necessidade de continuar a desenvolver e reforçar a parceria entre a África e a UE, baseada nos princípios do diálogo construtivo e respeito mútuo", ...
A minha mãe tinha um comentário para este tipo de discurso, quando nós os filhos tentavamos arranjar alguma desculpa evasiva quando as coisas não corriam bem: "isso é conversa para boi dormir. Conta a verdade."
Hoje, reconheço-lhe toda a razão do mundo. Como diria Jô Soares: " eu não sou palhaço, mas estão me fazendo". Até quando?
GED

quinta-feira, dezembro 06, 2007

CONVIDADO DA SEMANA

A Sofia brinda-nos com mais um dos seus quadros. Este feito para uma publicação de um livro em Espanha. Só resta agradecer-lhe.

GED

CIMEIRA EUROPA- ÁFRICA

Vai acontecer dentro em breve. Com Mugabe, óbviamente, o que como princípio não é saudável.
A globalização tem destas coisas. Entendimentos com base estritamente económica, pondo o humanismo de lado. Aliás, falar em humanismo hoje em dia, faz de nós gente obsoleta, retrograda, parada no tempo. Felizmente, tenho a certeza de que com o tempo, a humanidade voltará aos carris. Vai é demorar muito tempo e entretanto gerar problemas sociais tremendos e agudizar os já existentes.
Esta cimeira, começa mal, vai correr mal e terminar pior.
Na agenda préviamente anunciada, não há espaço aparentemente para uma única palavra sobre o drama do Darfur. Provávelmente porque aquela região do globo não tem nada de interessante do ponto de vista económico.
Convida-se Marrocos que não pertence à Organização de Estados Africanos, mas não se convida a República Árabe Sarauhi, que por acaso pertence. Escuso de invocar as possíveis razões para isso.
Vamos ter cá o actual dono do Zimbabwe, mas aposto que ninguém comentará o que se passa naquele país.
Quando se fala em economia, petróleo, recursos naturais, etc, que se lixe o humanismo.
Vai correr mal, ainda que no fim digam que foi um sucesso.
Fiquem bem.

GED

quarta-feira, dezembro 05, 2007

LOCALIZAÇÃO

Frequentemente, de tanto me ouvir falar, há amigos que me perguntam onde é o Cubal.
Pacientemente, coloco as coisas no seu devido lugar.
Respondo que é um local situado a 12 graus de latitude sul e 12 graus de longitude oeste. E. pronto.
Mas, na verdade não é bem assim.
O Cubal, verdadeiramente situa-se dentro de mim, dentro de todos nós, novos e velhos, homens e mulheres e miúdos, brancos, negros e mulatos, que vivem actualmente ou que já viveram lá e, que tiveram a sorte de beber daquelas águas.
Suave veneno, que marca a fogo as almas de todos nós. Outros poderão dizer o mesmo das suas terras, mas verdadeiramente Cubal só há este. Real, virtual, mas vivendo para sempre em cada um de nós, fazendo-se presente em todas as horas das nossas vidas.
E, garantidamente não vai haver quem me desminta.
Um abraço
GED

quinta-feira, novembro 29, 2007

SINAIS DO TEMPO

Como qualquer português, de vez em quando sou dado a coisas estranhas.
Como estamos perto do fim do ano e, aproxima-se um ano novinho em folha para podermos estragar à vontade, resolvi mentalmente rever o que aconteceu nos últimos tempos. Pasmei!
Não aconteceu nada.
Do julgamento da Casa Pia, nunca mais ouvi falar.
Do apito dourado, sabe-se lá o que aconteceu.
Fátima Felgueiras? Já ouvi este nome em qualquer lado.
Mentalmente também, ocorreu-me espontâneamente uma frase do Jô Soares, de quem não sou particular apreciador: "eu não sou palhaço, mas estão-me fazendo"!
Tenham um bom ano. Estraguem-no à vontade.

GED

DESAFIO SOBRE A ÉTICA

Mais um amigo, neste caso amiga, que me/nos brinda com o que escreve. Fico devedor.
Um abraço
GED

Um convite não se recusa, e principalmente quando vem de alguém que aprendemos a respeitar.
Obrigada Henrique.

Fiquei uns dias a pensar sobre o que escrever e dei comigo a revolver velhos escritos.
Assim, resolvi repescar um texto que há muito havia escrito e transpô-lo para "este tempo" em que, como administradora de um fórum, procuro pôr em prática o meu pensamento sobre o que entendo dever ser um comportamento ético e as regras de convivência nesse e noutro tipo de espaços na net.

Para isso, me socorri das palavras de meu amigo Frei Betto, num belíssimo texto com o título em epígrafe.

"... foi Maquiavel quem sugeriu aos poderosos o princípio de que 'o fim justifica os meios'. Em seu famoso livro, O Príncipe, ele aconselha: "... e nas ações de todos os homens, e máxime dos príncipes, quando não há indicação à qual apelar, se olha o fim. Faça, pois, o príncipe por vencer e defender o Estado: os meios serão sempre considerados honrosos e por todos louvados..." (Frei Betto)

Percebo que para muitos um fórum é um espaço de encontro, de diversão, para outros, ainda, um espaço em que não deveria haver lugar para divergência de opiniões... como se todos devessem ser bitolados para pensar do mesmo modo, de forma a que não ocorressem discussões. A minha opinião é que um fórum deve ser um espaço plural... isto é, o espaço do "matar saudades", do encontro, da diversão, mas também de debate, de cultura, sempre com respeito pelas opiniões contrárias. No entanto, pensar e debater, com respeito e tolerância, talvez não seja o corolário que se segue na maioria dos casos.
Por outro lado, sabemos que "cada um é como cada qual" e, por isso, difícil é gerar consensos entre todos. Mesmo assim, a sã convivência, na divergência, é possível se nos esforçarmos.

"... Quando se lança mão de irregularidades, de difamações, de trambiques, de fato se está perpetuando a velha sociedade opressora em nome de ideais libertários..." (idem)

"... A vida social exige autolimitação de nossos impulsos, controle de nosso instinto, seleção de nossos valores e opções que sempre implicam renúncias. Não se pode escolher isto sem renunciar àquilo. Em suma, aos poucos, se forja em nós o comportamento ético." (idem)

A ninguém deve passar despercebido quão frequentemente nos depararmos com esta falta de sentido de "autolimitação dos nossos impulsos"! Alguns espaços na net são exemplos paradigmáticos em relação a esta afirmação.

Um fórum de discussão, apesar de ser um espaço virtual, é o espelho do nosso comportamento diário. E, provavelmente, não há quem, nas situações do dia a dia, não controle os seus instintos. As pessoas não agem por instinto e têm liberdade de escolha... No caso vertente, a escolha entre o responder e não responder... a escolha de ler ou não as intervenções de membros que, à partida, podem não ser do seu agrado... a escolha de se mostrar ou não tolerante...

Congratulo-me que no fórum que administro este "ideal" de participação venha sendo praticado. E porque é sempre dia de esperança, transcrevo o que um amigo, nessa altura, deixou:

"Canta, canta e canta!
Mata a mudez do conformado
Canta a plena alma a rebeldia
desassossega o menino sossegado
e diz-lhe que da noite se faz dia."

Maló de Abreu

terça-feira, novembro 27, 2007

INVERNO

Hoje estava um frio de morte.
Vesti-me a preceito, camisa, camisola, casacão, calças grossas e sapatos a condizer.
Fiquei extremamente desconfortável.
Pus os meus óculos de sol, que uso todo o ano, retendo a sensação de que o inverno ainda não tinha totalmente chegado.
Com enorme tristeza, guardei as t' shirts e toda a leve roupa de verão.
E, ainda há gente que tem a lata de me dizer que gosta mais do inverno.
O que vale é que em Fevereiro, vou em busca do sol.
Aguenta aí Angola, que eu estou a chegar.

GED

terça-feira, novembro 20, 2007

CONTOS VELHOS, RUMOS NOVOS




Nestas coisas de andarmos com tralhas às costas, vão-se perdendo muitas coisas, menos as lembranças, ou como se diz em Angola, a "lembradura".

Acontece que aqui há muitos anos, em 1981 eu fui ao Kuito, na missão de reunir com os clubes e associações desportivas, para a construção do primeiro documento legislativo sobre a carta desportiva de Angola, e a lei das associações desportivas, entrei numa loja que era a mais "compostinha" do conjunto de lojas de um prédio, que era o orgulho dos habitantes do Silva Porto colonial, e que passou a ser o emblema mais marcante da ferocidade da guerra desencadeada pela UNITA em 1992. Essa loja era "compostinha" porque efectivamente não vendia nada que pudesse ser utilizado pela população local; De facto esta loja pertencia à CDA (Companhia de Discos de Angola), uma fábrica de discos que existia em Silva Porto, e que salvo erro pertencia à Valentim de Carvalho. Entrei, e fiquei maravilhado com o que por ali vi, o que comprei, e o que tive pena de não ter dinheiro para comprar. Convirá esclarecer que na Angola daquele tempo, se não andássemos com dinheiro atrás de nós, não podíamos comprar nada, e nem o vulgar cheque era possível trocar (Em muitas dependencias do BPA nem o cheque visado em Luanda era aceite).

Foi uma das lojas mais fascinantes que vi em Angola depois da independencia, e aí para além dos Kiezos, Carlos Lamartine, Rui Mingas, Jorge Manuel, Elias, conseguia ter verdadeiras preciosidades, que só me apetecia comprar essa loja, que em tempos se chamou Auto-Reparadora do Bié. Entre vários discos avultavam discos do tipo Luis Aguillé do "Quando Sali de Cuba", o Gabriel Cardoso e a sua "Ericeira", o "Adeus Guiné", o "Kanimambo" do Tudela, para já nem recuar um pouco mais, senão chegaria às musicas preferidas por um topógrafo, que à frente de uma enorme manifestação, desafiou o governo português para pagar as compensações da descolonização (eheheh). Posso mesmo dizer que comprei lá um disco do meu querido e saudoso amigo, companheiro de tantas noites, o Mário Simões, que nunca vi vender em lado algum.

Podia continuar a falar dessa loja, e dos discos que por lá havia, mas o que aconteceu foi que encontrei um disco de José Afonso "Traz outro amigo também", e perguntei ao Laurindo (ex-jogador do Belenenses e Futebol Clube do Porto), que era na altura o delegado da Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, se sabia quem acompanhava o Zeca à viola? Ele dessabia, assim como todos os outros que por ali estavam a aguardar o início da reunião, inclusive o comissário municipal do Chinguar, terra donde o Carlos Correia, vulgarmente conhecido pelo Bóris (pela sua semelhança com Bóris Karloff, segundo Orlando Ferreira Rodrigues, que se assume como seu padrinho de alcunha) era natural.

O Bóris, andou pelo conjunto do Orfeon Académico de Coimbra, depois numa efémera passagem pelos Álamos e depois pelo conjunto académico Hi-Fi. O Bóris teve como companheiro até 1970, o viola-ritmo, Luis Filipe Colaço, um homem de Luanda, que foi durante muitos anos director do Instituto Nacional de Estatística em Angola. O Bóris e Luis Filipe Colaço, foram os violas do José Afonso no disco já mencionado , como tinham sido nos "Contos Velhos, Rumos Novos". Para além disso o Colaço ainda participou nos arranjos do disco de Adriano Correia de Oliveira, o "Canto e as Armas", uma verdadeira pedrada no charco na musica portuguesa, pois o bom do Adriano resolveu dar a voz a um livro proibido pela censura, de um Alegre que clamava por liberdade directamente de Argel, nos negros anos do fascismo em Portugal e colónias.

Resolvi trazer aqui este episódio do Kuito, para poder falar-vos de dois angolanos, profissionais enormes em áreas que nada tem a ver com a musica, mas que fazem parte de um movimento importante da musica de intervenção, e simultaneamente participantes em conjuntos que marcaram o rock português na sua fase pré-histórica.

"Álamos" surgem em 1963, quando José Cid (o próprio, o das "favas com chouriço") decide largar o conjunto do Orfeon Académico para fundar os Babies. Da primeira fase, fazem parte o Daniel Proença de Carvalho (guitarra), o Rui Ressureição (piano) e o Luis Filipe Colaço (guitarra).Em 1968, os Álamos com a saída do Proença de Carvalho (o tal advogado de ca$$os difíceis), à formação anterior junta-se o Carlos Correia (Bóris), o José António Pereira (bateria),José Luis Veloso (guitarra-baixo) e António José Albuquerque (órgão). Quando em 1970 se dá a fuga de Portugal de Luis Filipe Colaço, os Álamos acabam e dão origem com o Bóris e o Ressureição ao Conjunto Universitário Hi-Fi, com a voz feminina da Ana Maria.

Espero ter-vos feito recordar, aos que sabiam deste episódio do muito que se fez por angolanos na Coimbra dos anos 60, e aos que desconheciam que comecem a procurar o "Stop that game", que é o album de referencia dos Álamos.

Mais um amigo que se junta e nos brinda com mais um alicerce, na história das nossas vidas.
Fico-lhe agradecido e devedor.
Um abraço
GED

sábado, novembro 17, 2007

BLOGUE DO CUBAL

De repente recebo um email.
Alguém da "generation next", me diz que está a fazer um blogue do Cubal e precisa de ajuda para o desenvolver.
Só podemos estar orgulhosos e, ajudar.
Chama-se Ruca e é filho do Raúl e da Júlia.
Fica assinalado aqui nos meus links, como o blogue do Ruca.
Estou para ajudar e vocês não se estiquem, como é costume!!!
Um abraço
Henrique

sexta-feira, novembro 16, 2007

NOTÍCIAS DE LÁ

Vem com atraso, mas é para divulgar.

09/11/2007

O Ministério da Cultura (Mincult) procede hoje, durante uma gala a realizar-se no Cine Tropical, em Luanda, a entrega dos prémios das diversas categorias da edição 2007 do Prémio Nacional de Cultura e Artes.

Na disciplina de literatura foi atribuído o prémio à escritora Paula Tavares, pela sua obra poética "Canta o sonho de mulheres feridas e humilhadas", investigação em ciências humanas e sociais coube a António Fernandes da Costa, com "Roturas estruturais do português" e nas artes plásticas foi atribuído, à título póstumo, ao escultor e pintor Rui de Matos.

Na categoria de teatro foi premiado o grupo Horizonte Nzinga Nbandi, cinema e áudio visual à equipa do programa da Televisão Pública de Angola "Conversas no Quintal", enquanto que na disciplina de música foi contemplado o artista e compositor Elias dia Kimuezo.

O grupo Bismas das Acácias, da província de Benguela, venceu na categoria de dança.