Artemísia: A nova esperança
para a erradicação da malária?
Um arbusto vindo da China está a dar que
falar na comunidade médica, dividida quanto à forma de combater a malária. A
artemísia poderá ter um papel-chave como um medicamento natural e mais acessível
contra a doença.
Em
2015, cerca de 429 mil pessoas morreram com malária num total de 212
milhões de casos registados em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de
Saúde (OMS). Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de erradicar a
malária, a comunidade médica está dividida sobre como é que isto deve ser
feito.
Um
arbusto vindo da China está a agitar as águas. Já utilizada na base de
tratamentos contra a malária, a planta Artemisia Annua também
se revela eficaz quando as suas folhas são usadas para fazer chá.
Uma
rede internacional de cientistas e médicos ligados à associação francesa
"La Maison de l'Artemisia" ("A Casa
da Artemísia") tenta há alguns anos divulgar a planta como um remédio
natural, mais acessível do que produtos farmacêuticos, no combate à malária.
Um chá anti-malária
Cada
saco de chá produzido pela organização não-governamental francesa contém 1,7
gramas de Artemisia
Annua, suficientes para fazer uma
chávena.
"Quando
tomas três chávenas por dia para curar a malária, estás a tomar 5,1 gramas,
pouco mais de 5, o que é bom. É melhor tomar a mais do que a menos", diz
Pierre Van Damme, um engenheiro agrícola belga que trabalha para
"A Casa da Artemísia" em Dakar, no Senegal.
As
vantagens são muitas, diz: "Com a artemísia, temos a certeza de que, dois
dias depois, a febre baixou. Quatro dias depois, já não há mais sinais de
malária. Sete dias depois, os parasitas que se alojaram no fígado desapareceram
por completo." Apesar
de os testes rápidos de diagnóstico de malária estarem disponíveis há vários
anos, o tratamento desadequado ainda é comum em África.
Pessoas
que não têm malária tomam medicamentos antimaláricos sem necessidade - por
exemplo, quando têm sintomas semelhantes aos da doença, como a febre. Há
vários anos que o tratamento da malária em África se baseia em medicamentos
como a cloroquina e a sulfadoxina, combinadas com a pirimetamina e o quinino.
Mas, devido ao uso em excesso, desenvolveu-se uma resistência a alguns destes
medicamentos, e foi preciso encontrar novos tratamentos. Atualmente,
recomenda-se a utilização de terapias combinadas com base em artemisinina no
combate à malária - tratamentos que não são baratos.
A
artemisinina vem da artemísia, e um número crescente de cientistas,
profissionais de saúde e investigadores como Van Damme acreditam que usar a
folha inteira da artemísia - e não apenas um extracto - poderia ter um
papel-chave na erradicação da malária. "Recomendamos
o uso da planta inteira, porque está provado que a planta como um todo, com as
suas 200 substâncias ativas que trabalham em sinergia, combate todos os
parasitas encontrados no sangue, entre eles a malária", explica Pierre Van
Damme.
Dúvidas persistem
Há
vários anos que as empresas farmacêuticas usam a artemisinina para produzir
medicação antimalárica. Em 2015, um investigador chinês venceu o prémio Nobel
da medicina pela redescoberta dos benefícios da planta, que há anos é usada na
medicina tradicional chinesa. No entanto, a OMS alerta para a utilização
exclusiva da planta apenas como um medicamento natural.
Desde
2000, a taxa de mortalidade por malária diminuiu 60% em todo o mundo, segundo a
OMS. No Senegal, há menos de 300 mil pacientes de malária atualmente,
comparando com 700 mil, há dez anos. Alioune Gueye, do Programa Nacional
de Controlo da Malária, diz que isto se deve à política nacional de
distribuição gratuita de medicamentos e redes mosquiteiras.
"Se
hoje em dia o Senegal está à beira da pré-eliminação da doença, é porque
as ferramentas que usamos há 15 ou 20 anos são claramente eficazes",
afirma. Quanto
ao uso da artemísia no tratamento da malária, o médico ainda tem algumas
dúvidas: "É uma planta que tem virtudes, mas trata-se de saúde pública e,
no Senegal, temos uma população de 14 milhões de pessoas. Os riscos são
significativos, por isso temos de garantir a segurança destes produtos antes de
os distribuirmos à escala nacional".
Artemísia já cresce em África
A Artemisia Annua não cresce naturalmente em África, mas a sua
"prima", a Artemisia
Afra, sim. No entanto, a variante africana
tem outras substâncias ativas. "A Casa
da Artemísia", que já está presente em 31 países africanos, usa as
folhas inteiras das duas plantas nos seus sacos de chá, e planta as duas
variantes em Tivaouane, a norte de Dakar.
Karim
Sankaré é agrónomo e, juntamente com dois colegas, toma conta do terreno de
quatro hectares, onde são plantadas cerca de 8 mil plantas, no total: "As
propriedades medicinais estão principalmente nas folhas. As sementes são
colhidas para termos plantas na próxima época", explica. As plantas
crescem rapidamente, diz Karim. Quando atingem 1,20 metros de altura, são
colhidas. A
folha de artemísia seca já curou pessoas com malária, segundo um estudo levado
a cabo no Congo e nos Estados Unidos, em 2017. Após beberem o chá, 18 pessoas
que sofriam de malária grave foram curadas, depois de os medicamentos comuns
terem falhado. Desde então, o gabinete da OMS em Brazzaville decidiu estudar as
possibilidades desta planta chinesa e da variante africana que cresce no
continente.
Uma planta em vez de agulhas
A
irmã Marie Emilie Diouf, parteira de formação, dirige o centro católico de
saúde em Popenguine, uma aldeia nos arredores de Dakar. Começou a prescrever
artemísia para tratar a malária há três anos, depois de uma formação sobre
plantas medicinais. As
plantas revelaram-se mais eficazes do que as terapias combinadas baseadas em
artemisinina. "Apercebi-me de que, com todos os pacientes que tratei, não
usei quinino ou terapias combinadas. Usei artemísia e não precisei de fazer
nenhuma infusão", conta. O
quinino é geralmente utilizado quando há suspeitas de resistência à cloroquina,
um medicamento usado para tratar ou prevenir a malária, e é administrado
por infusão intra-venosa, durante quatro horas. Mas alguns pacientes não
queriam ser picados com agulhas, e, noutras ocasiões, o centro de saúde estava
sobrelotado. Os
pacientes iam ter com a irmã Emilie para fazer perguntas sobre a planta e a
irmã acabou por perceber que estava a usar apenas artemísia para os tratar,
apesar de ter medicamentos disponíveis: "Acabei por devolver as
terapias combinadas que, suponho, são derivadas da artemísia. Para mim, é
melhor usar a planta inteira", afirma.
Um impulso para a erradicação?
Ciente
de que as pessoas preferem muitas vezes um tratamento natural ou tradicional, o
médico Alioune Gueye diz que o Programa Nacional de Controlo da Malária dá
algumas instruções aos curandeiros tradicionais sobre a melhor forma de
tratamento. "Tentamos
ter uma colaboração franca com os curandeiros, para que, se estiverem
assoberbados ou não tiverem as ferramentas necessárias, reencaminhem os
pacientes para as unidades de saúde apropriadas", explica. O
Senegal está a trabalhar para erradicar a malária até 2030. Muito graças
aos significativos apoios do Fundo Global - uma parceria entre governos,
sociedade civil e o setor privado. Em janeiro, o Senegal recebeu 32 milhões
para o combate à malária nos próximos dois anos. Ainda
que os medicamentos estejam disponíveis de forma gratuita no país, aceder aos
tratamentos pode levar algum tempo nas localidades mais remotas, ou se os
centros de saúde estiverem sobrelotados.A vantagem da artemísia é que pode ser
plantada em qualquer lado e as suas folhas secas podem ser usadas como um
medicamento natural eficaz.
Com mais investigações a decorrer, os resultados
positivos revelados até agora sugerem que a milenar erva chinesa pode
impulsionar a erradicação da malária no Senegal. Noutros país afetados pela
doença, como o Congo, o Benim e o Burkina Faso, algumas comunidades já estão a
optar pelos medicamentos naturais, como a artemísia.