quinta-feira, janeiro 15, 2026

ATÉ ONDE?

Luandino, um dos nossos escritores maiores, escreveu isto: nasci há 45 anos e nunca dei por estar a crescer.

Vivi, escrevi. Engrossei o rio de lágrimas e o sangue que me pariu. Depois lutei contra a corrente. Pelejei com as margens. Agora cheguei à foz, Com os meus companheiros, os fiéis da vida.

Diante de nós o mar, Aqui me despeço e entro o mar com eles. Até onde?

Estas frases lidas há muitos anos, marcaram-me para sempre. No momento em que as li, tive a certeza absoluta que tinha entendido a mensagem, mas que não estava totalmente de acordo com ela. Até que li Mia Couto: hoje eu sei. África rouba-nos o ser. E nos vaza de maneira inversa, enchendo-nos de alma. 

Também eu cheguei à foz

Chegaram também os amigos, e a minha gente

Até onde não existe para mim

E jamais adentrarei o mar

A minha casa fica na esquina das areias douradas

E do grande mar oceano

Todas as manhãs os pássaros chilreiam na minha janela

Já não vou ao supermercado comprar mangas

Nem mamões, goiabas, bananas, loengos

Oriundas de destinos e gostos incertos

Apenas o grito das quitandeiras, sem intermediários

E o sabor real da minha infância

A vida escorre nesta cadência africana

Há muito esqueci os gelos do inverno

Agora, apenas este calor colado à pele

Como uma manta velha, confortável

Não há até onde no meu futuro

E jamais adentrarei o mar

Este é o meu lugar, e é aqui que fico

É aqui também que um dia, inevitávelmente morrerei

É aqui, só aqui que consigo sentir-me feliz

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