Luandino, um dos nossos escritores maiores, escreveu isto: nasci há 45 anos e nunca dei por estar a crescer.
Vivi, escrevi. Engrossei o rio de lágrimas e o sangue que me pariu. Depois lutei contra a corrente. Pelejei com as margens. Agora cheguei à foz, Com os meus companheiros, os fiéis da vida.
Diante de nós o mar, Aqui me despeço e entro o mar com eles. Até onde?
Estas frases lidas há muitos anos, marcaram-me para sempre. No momento em que as li, tive a certeza absoluta que tinha entendido a mensagem, mas que não estava totalmente de acordo com ela. Até que li Mia Couto: hoje eu sei. África rouba-nos o ser. E nos vaza de maneira inversa, enchendo-nos de alma.
Também eu cheguei à foz
Chegaram também os amigos, e a minha gente
Até onde não existe para mim
E jamais adentrarei o mar
A minha casa fica na esquina das areias douradas
E do grande mar oceano
Todas as manhãs os pássaros chilreiam na minha janela
Já não vou ao supermercado comprar mangas
Nem mamões, goiabas, bananas, loengos
Oriundas de destinos e gostos incertos
Apenas o grito das quitandeiras, sem intermediários
E o sabor real da minha infância
A vida escorre nesta cadência africana
Há muito esqueci os gelos do inverno
Agora, apenas este calor colado à pele
Como uma manta velha, confortável
Não há até onde no meu futuro
E jamais adentrarei o mar
Este é o meu lugar, e é aqui que fico
É aqui também que um dia, inevitávelmente morrerei
É aqui, só aqui que consigo sentir-me feliz
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