terça-feira, janeiro 20, 2026

NOBEL DA PAZ

 


Eu não quero ganhar o Nobel da Paz. por muitas razões, embora tivesse toda a legitimidade para o receber.
Ainda que não tenha acabado com 296 guerras, ainda que não queira anexar países de outrem, nunca quis mal a este planeta e às suas gentes.
Não quero ganhá-lo, porque não me quero ver na mesma galeria de tanta gente, que é muito inferior a mim. Longe vão os tempos de Mandela e de outros verdadeiros seres humanos.
Actualmente, o Prémio não passa de um adorno para ter na sala de estar, e na verdade nem isso me move, porque ficava fora de contexto junto aos quadros que tenho na parede.
E, no fim de tudo isso, ainda pode acontecer, se alguém imbecil, muito imbecil, resolver dar-me o referido prémio.

quinta-feira, janeiro 15, 2026

ATÉ ONDE?

Luandino, um dos nossos escritores maiores, escreveu isto: nasci há 45 anos e nunca dei por estar a crescer.

Vivi, escrevi. Engrossei o rio de lágrimas e o sangue que me pariu. Depois lutei contra a corrente. Pelejei com as margens. Agora cheguei à foz, Com os meus companheiros, os fiéis da vida.

Diante de nós o mar, Aqui me despeço e entro o mar com eles. Até onde?

Estas frases lidas há muitos anos, marcaram-me para sempre. No momento em que as li, tive a certeza absoluta que tinha entendido a mensagem, mas que não estava totalmente de acordo com ela. Até que li Mia Couto: hoje eu sei. África rouba-nos o ser. E nos vaza de maneira inversa, enchendo-nos de alma. 

Também eu cheguei à foz

Chegaram também os amigos, e a minha gente

Até onde não existe para mim

E jamais adentrarei o mar

A minha casa fica na esquina das areias douradas

E do grande mar oceano

Todas as manhãs os pássaros chilreiam na minha janela

Já não vou ao supermercado comprar mangas

Nem mamões, goiabas, bananas, loengos

Oriundas de destinos e gostos incertos

Apenas o grito das quitandeiras, sem intermediários

E o sabor real da minha infância

A vida escorre nesta cadência africana

Há muito esqueci os gelos do inverno

Agora, apenas este calor colado à pele

Como uma manta velha, confortável

Não há até onde no meu futuro

E jamais adentrarei o mar

Este é o meu lugar, e é aqui que fico

É aqui também que um dia, inevitávelmente morrerei

É aqui, só aqui que consigo sentir-me feliz